Se é mãe, ganha menos .. A realidade que vivem as profissionais mães do Século XXI

Matéria publicada na Revista Veja

O grande dilema do século XXI – cuidar dos filhos ou da carreira – impõe às mulheres uma nova postura, mais forte e exigente


Inaê, de 35 anos, com o filho de 1 ano e meio, grávida
de oito meses: ela decidiu não tirar licença-maternidade
para não perder espaço no trabalho
 
 A ativista Margaret Sanger (1879-1966), pioneira do direito feminino de evitar filhos, uma das mães da pílula anticoncepcional (veja reportagem), criou a Liga Americana de Controle da Natalidade, em 1921, ancorada em uma máxima que repetia com assiduidade: "Nossas meninas precisam entender que a maternidade é a mais sagrada das profissões do mundo, e é uma profissão que exige mais preparação do que qualquer outra destinada às mulheres". Ser mãe, hoje como antes, dá trabalho – e quase sempre em dupla jornada –, mas a metáfora do início do século XX envelheceu, e toda mulher sabe que profissão é outra coisa, é um emprego como o que os homens podem ter. A frase de Sanger, inspiradora em seu tempo, em 2010 é quase uma aberração. Atualmente, maternidade e trabalho profissional são expressões que costumam colidir. É um dos grandes dilemas de nosso tempo, a dura opção entre a maternidade e a carreira.
É possível compreendê-lo por meio de estatísticas. Um estudo da FEA-USP mostra que trabalhadoras com filhos pequenos têm em média, no Brasil, salário 27% menor que o de suas colegas sem filhos. "Apesar de todos os avanços dos últimos anos, as mulheres continuam sendo o maior objeto de preconceito nas empresas brasileiras, seguidas pelos idosos e por menores de 25 anos", diz Hermano Roberto Thiry-Cherques, coordenador do núcleo de Ética nas Organizações da FGV-RJ.
Há imensas dores do parto para a mãe que trabalha – é forte a cobrança, pública e privada, para cuidar do filho e do emprego ao mesmo tempo e de igual maneira, algo que não é pedido aos homens. Há excelentes profissionais que não são bons pais – e pais dedicados que não são bons profissionais. Mulheres nessas condições costumam ser empurradas para o ostracismo social.
Mulheres sem crianças nas grandes empresas dos Estados Unidos ganham quase o mesmo que os homens em posições similares. As mães com companheiro ganham um pouco menos. As mães solteiras, muito menos. Convém ressaltar que parte da razão do fosso – que diminui, porque muitas mulheres já ganham o mesmo que os homens em posições idênticas – é o avesso do preconceito de gênero. As mulheres costumam ser julgadas pelo mesmo padrão com o qual se mede a postura masculina, e, nunca é tarde para lembrar, mães engravidam – pais, não. Talvez fosse melhor ter critérios diferentes para um e outro grupo.
Há um paradoxo instalado. A vitoriosa revolução sexual feminina, que lutou por igualdade de direitos, pode involuntariamente ter barrado o acesso das mulheres ao trabalho – pelo simples fato de que elas são biologicamente diferentes dos homens, especialmente porque concebem. O resultado: em muitos países, mesmo nos mais liberais e democráticos, as mulheres rejeitam a maternidade. Na Suíça, 40% delas não têm filhos. As que não rejeitam, adiam a maternidade, com a ajuda da medicina. Mas nem isso resolve o grande nó a desatar. Um estudo da Universidade de Chicago mostra que, dez anos depois da graduação, apenas metade das mulheres que cursaram MBA ainda trabalha em período integral. Outro levantamento americano, este com mulheres que deixaram o trabalho depois da gravidez, indica que apenas 7% delas demonstraram vontade de voltar ao batente – 74% realmente voltaram, mas apenas 40% continuaram com emprego de dia inteiro.
Adiar a maternidade não resolve. Outra contradição deste início de século XXI complica a busca por isonomia dos gêneros. As mulheres estudam mais que os homens, ocupam mais assentos em universidades (veja o quadro), mas não se nota esse benefício nos salários quando avançam na carreira e envelhecem. Levantamento da Cranfield University School of Management, da Inglaterra, traz um detalhe incômodo. Na faixa dos 20 anos, a diferença salarial entre homens e mulheres, no mundo ocidental rico, é de apenas 6%. Com o passar do tempo, a distância aumenta para 21%. Ou seja: a mulher ganha menos quando fica mais velha, e ganha menos ainda ao associar a profissão com a maternidade. Dá-se a diferença, segundo o estudo, "quando a mulher fica grávida, mas também na primeira infância". O afastamento compulsório, por imposição da maternidade, aparta as mulheres dos cursos, das horas de trabalho, dos bônus salariais.
É fundamental, na compreensão dessa discrepância no bolso, distinguir discriminação de desigualdade salarial. A discriminação ocorre quando a
mulher é forçada a receber salário inferior em posto igual ao de um homem, o que é proibido por lei. A desigualdade salarial é um problema mais complexo porque tem causas diversas e sutis.
A maioria dos empregos de meio período é feminina. Na Espanha, segundo a Fundação Mulheres, o mercado de trabalho oferece 30% menos benefícios às mulheres que aos homens. Um exemplo: a Iberia, companhia de aviação, concede prêmios por horas de voo, horas que não são amealhadas por grávidas, impossibilitadas de voar. "Uma mulher de 40 anos com dois filhos estará dois patamares abaixo em relação a homens que não tenham interrompido a carreira", disse Marisa Sotelo, da Mulheres, ao jornal El País. "As horas de voo parecem um critério objetivo, mas seu resultado não é."
Não é o caso de afirmar, por estar distante da realidade, que a revolução feminina tenha sido derrotada por um desiderato biológico. O que brota são iniciativas, de governos e empresas, que começam a permitir que mães trabalhem como pais. Aumenta o número de creches. Em quase todo o mundo, o tempo de licença-maternidade cresce (no Brasil, as empresas já podem aderir à de 180 dias). O trabalho em casa (não o doméstico) aumenta. Mais de 90% das empresas da Alemanha e da Suécia têm horários flexíveis. Empresas tentam calcular como pagar a ausência da mulher, nos meses de gravidez e aleitamento, de modo a não prejudicá-las. É um movimento que muda tudo.
Já há alguns anos se ensaia essa nova sociedade de novíssimos personagens. A paulista Inaê Cavalcanti Marcondes Machado, de 35 anos, é dermatologista, diretora de uma clínica especializada em recuperação capilar. Inaê é mãe de um menino de 1 ano e meio, tem um enteado de 5 anos, cuja guarda é compartilhada pelo marido e por sua ex-esposa,
e está grávida de oito meses. Casada com um bem-sucedido empresário do ramo de exportações, atribui a chance de não enlouquecer com a jornada dupla aos avanços sociais das últimas décadas. "Meu marido está sempre presente, troca fraldas, lava a louça, só não faz o que biologicamente lhe
é impossível", diz.
Mas é, na opinião dela, ainda apenas uma "abertura promissora", o início de uma mudança definitiva. Como promessas não passam disso mesmo, e a grande transformação apenas agora toma corpo, Inaê decidiu não tirar licença-maternidade, legítimo direito. "O mercado é muito competitivo, eu perderia espaço se ficasse muito tempo fora", diz ela, com a convicção de que homens não têm esse problema. "Embora tenham outros", resume – e muitos deles se devam ao excesso de testosterona, a matriz da competitividade exagerada. A médica entende, pelo cotidiano de seu trabalho, de contato direto com as pessoas, que as mulheres conquistaram espaço em razão de uma monumental e silenciosa mudança: atributos fundamentalmente femininos, como empatia e atenção, antes desconsiderados no trabalho, desvalorizados, hoje valem ouro. "Somos mais associativas", diz.
Patricia Nogueira, de 33 anos, mãe de um menino de 3 e grávida do segundo filho, gerente de marcas de produtos de higiene da Dove para a América Latina, conta que, antes de dar aos pais a boa notícia da primeira gestação, teve o cuidado de avisar o chefe. "Como não poderia viajar até completar três meses de gravidez, e como não queria perder espaço, tomei esse cuidado", lembra. Agora com dois filhos, ela também sabe que precisará dividir a maternidade com o marido, Alexandre. "Não sou polvo, com oito mãos, então o papel dele será essencial." Às vezes, o coração de executiva aperta, principalmente ao ouvir Diego perguntar por que ela não chega mais cedo em casa. A resposta: "Mamãe vai trabalhar porque isso me deixa mais feliz". Nos anos 1960, uma frase dessas soaria cruel. Não é.

Patricia, com o filho de 3 anos, grávida de sete meses.
O chefe ficou sabendo da gravidez antes dos avós

E, no entanto, a grande indagação permanece: onde deixar os filhos? Eis a dificuldade quase intransponível, mesmo para quem tem dinheiro e pode contratar babás e serviços de creches. Quem não pode contar com uma rede de auxílio do governo – muito comum na Europa, por exemplo – precisa pensar em um plano B. Como a crise econômica atingiu mais duramente os setores tradicionalmente masculinos, como a indústria automobilística e a construção civil, as mulheres – no exterior, mas também no Brasil – estão cada vez mais assumindo o papel de chefe de família (são 34,9% no Brasil), desafiando o status do homem como provedor. Criou-se, portanto, um novo personagem: o dono de casa. Só na Inglaterra, há cerca de 200 000 homens cuidando dos filhos e das tarefas domésticas, enquanto a esposa bate cartão de ponto na empresa. Rob Williams, diretor do Fatherhood Institute, uma organização britânica voltada aos pais que optaram por ser mãe, diz que desde 1970 aumenta o número de homens que preferem limpar o lar a passar horas dentro do escritório. "A ideia de que os homens são provedores exclusivos entra, aos poucos, em colapso", diz Williams.
O paulista António Morey, de 55 anos, é dessa turma. Desde que perdeu o emprego em uma multinacional, há sete anos, vem assumindo todas as funções de uma dona de casa: lava, passa, faz a feira e a faxina, e ainda cozinha. A mulher, Regina, trabalha em uma empresa de administração de imóveis. Ele garante que não se arrepende da decisão, mas admite que foi difícil aceitar a nova rotina – e ser aceito pelos ex-colegas. "É complicado para a autoestima trocar de papel com a mulher", diz. "Tenho muitos amigos que estão na mesma situação econômica, mas que, por machismo ou orgulho, preferem não falar a respeito." Para derrubar o tabu, ele escreveu o livro Afinal, Quem Está no Comando?, sobre as agruras de um recém-desempregado obrigado a assumir as tarefas domésticas para não diminuir muito o padrão de vida da família. "Não há do que se envergonhar, as mulheres desempenharam essas tarefas durante séculos, agora é a nossa vez."

António Morey, o dono de casa: "É complicado para a autoestima trocar de papel
com a mulher"



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